NOTÍCIAS

>

Renda Fixa

Brasil lidera ranking mundial de juros reais com taxa de 9,67% ao ano

Brasil lidera ranking mundial de juros reais com taxa de 9,67% ao ano

Mesmo após o ciclo de cortes da Selic, o país retoma o topo do ranking global de juros reais, superando Rússia e México, segundo levantamento da MoneYou e Lev Intelligence.

Mesmo após o ciclo de cortes da Selic, o país retoma o topo do ranking global de juros reais, superando Rússia e México, segundo levantamento da MoneYou e Lev Intelligence.

Redação ND

Redação ND

|

## O pódio que ninguém quer, mas que define tudo

Existe um ranking em que o Brasil não precisa de Copa do Mundo para ser campeão. A tabela dos juros reais mais elevados do planeta é atualizada mês a mês, e o país voltou ao primeiro lugar com uma consistência que mistura constrangimento macroeconômico e, para o investidor local de renda fixa, uma oportunidade que poucos mercados no mundo conseguem oferecer.

Segundo levantamento da MoneYou em parceria com a Lev Intelligence, o Brasil registra juro real de **9,67% ao ano** — resultado da Selic nominal de 14,25% descontada a inflação corrente. A Rússia, pressionada pela guerra e pelo isolamento econômico, aparece na segunda posição, seguida pelo México, que ainda carrega resquícios de um ciclo agressivo de aperto monetário iniciado em 2021.

Para situar o leitor: os Estados Unidos, após o ciclo de altas do Federal Reserve que marcou 2022 e 2023, operam com juros reais na faixa de 1,5% a 2,5%, a depender do vencimento da Treasury utilizada como referência. A zona do euro mal saiu do território negativo há dois anos. O Japão segue com juro real efetivamente negativo. O Brasil, nesse contexto, está em outro planeta.

## O que explica essa anomalia estrutural

A resposta curta é: uma combinação de histórico de inflação elevada, prêmio de risco fiscal persistente e uma estrutura institucional que, por décadas, acostumou credores a exigir compensação generosa para financiar o governo brasileiro.

A resposta longa passa por pelo menos quatro décadas de memória inflacionária que moldaram o comportamento de poupadores, a indexação de contratos e a própria arquitetura do mercado de títulos público. O Plano Real domou a hiperinflação em 1994, mas não eliminou a desconfiança estrutural sobre a capacidade do Estado brasileiro de manter o equilíbrio fiscal ao longo do tempo.

Somam-se a isso os episódios recorrentes de deterioração das contas públicas — o mais recente sendo a expansão fiscal do período pós-pandemia que forçou o Banco Central a iniciar o atual ciclo de aperto em 2024, elevando a Selic dos 10,50% vigentes em junho daquele ano até o atual patamar de 14,25%.

O Comitê de Política Monetária (Copom) interrompeu o ciclo de alta na reunião de março de 2025, mas o mercado futuro ainda precifica juros elevados por período prolongado. O IPCA acumulado nos últimos 12 meses, na casa de 4,5% a 5%, mantém o juro real acima de 9% mesmo com a Selic no nível atual.

## O que esse número significa para o investidor de alto patrimônio

Para quem gerencia patrimônio relevante no Brasil, o juro real de 9,67% ao ano não é apenas uma estatística macroeconômica. É o **custo de oportunidade que calibra todas as decisões de alocação**.

Um portfólio integralmente alocado em títulos públicos atrelados à Selic — via Tesouro Selic ou fundos DI de taxa zero — entrega retorno real que nenhum mercado desenvolvido consegue aproximar. LFTs, CDBs de grandes bancos e fundos de crédito privado de primeira linha compõem uma prateleira de renda fixa que, em termos ajustados ao risco, é difícil de bater globalmente.

Isso tem implicações diretas sobre alocação em renda variável doméstica. O Ibovespa precisa entregar retorno real substancialmente superior ao CDI para justificar o prêmio de risco adicional — e historicamente isso nem sempre ocorre em janelas de 12 a 36 meses. A competição com a renda fixa é, portanto, estruturalmente desfavorável às ações brasileiras enquanto esse diferencial permanecer.

No plano internacional, a situação é ainda mais reveladora. Um investidor brasileiro que mantém parcela do patrimônio no exterior — seja via BDRs, fundos offshore, contas no exterior ou investimento direto — precisa considerar que o custo de manter capital fora do Brasil é, em termos de juro real perdido, extraordinariamente elevado. Isso não significa que a diversificação internacional seja equivocada — proteção cambial e descorrelação de ativos têm valor intrínseco —, mas o cálculo precisa ser feito com clareza.

## A armadilha do conforto da renda fixa

Há um risco comportamental relevante nesse cenário que merece atenção. Juros reais elevados por período prolongado criam o que os economistas comportamentais chamam de **viés de disponibilidade**: o investidor naturaliza o retorno extraordinário, passa a tratá-lo como piso permanente e subestima o risco de mudança de ciclo.

Historicamente, os momentos em que o Brasil reduziu estruturalmente seus juros reais — como no período entre 2012 e 2013, quando a Selic foi levada a 7,25% em tentativa malsucedida de estimular crescimento, ou na trajetória de queda que culminou nos 2% de 2020 — geraram perdas relevantes para quem permaneceu alocado em LFTs e equivalentes sem migrar para ativos de maior duration ou risco de crédito.

O investidor de alto patrimônio precisa, portanto, montar a alocação de renda fixa com visão de ciclo, não de perpetuidade. Isso significa considerar títulos IPCA+ de longo prazo (NTN-Bs), que travam o juro real por décadas caso o cenário de queda estrutural da Selic se materialize, além de crédito privado selecionado, que oferece spread sobre o CDI sem dependência direta do nível da Selic.

## O contexto global que torna o Brasil ainda mais peculiar

Enquanto o Brasil mantém juro real próximo de dois dígitos, o ciclo global de aperto monetário iniciado em 2022 está em reversão. O Federal Reserve já cortou juros três vezes desde setembro de 2024. O Banco Central Europeu acelerou o ritmo de cortes no segundo semestre do mesmo ano. A China opera com política monetária expansionista para tentar reanimar o crescimento.

Essa divergência cria um diferencial de juros Brasil-exterior que pressiona o câmbio em direção à valorização do real — ou ao menos reduz a pressão depreciativa. Para o investidor que tem passivos em reais e ativos no exterior, isso pode representar erosão de valor. Para quem tem ativos dolarizados como hedge, a equação muda conforme o prazo e o objetivo.

O fato de a Rússia aparecer em segundo lugar no ranking é, por si só, revelador. É um país sob sanções econômicas severas, isolado do sistema financeiro global e em estado de guerra. Estar no mesmo pódio de juro real não é exatamente um certificado de excelência macroeconômica.

## O que monitorar nos próximos meses

Três variáveis determinam se o Brasil permanece campeão ou começa a ceder posições no ranking:

**1. Trajetória fiscal:** O projeto de corte de gastos aprovado no final de 2024 e a execução orçamentária de 2025 serão determinantes. Qualquer sinalização de deterioração recoloca pressão sobre os prêmios de risco e dificulta cortes futuros da Selic.

**2. Inflação:** O IPCA corrente está dentro da banda superior da meta, mas a inércia de serviços e os preços de alimentos seguem pressionados. Um recuo mais rápido da inflação abriria espaço para o Copom retomar cortes ainda em 2025.

**3. Cenário externo:** A política tarifária americana sob a gestão Trump 2.0, o comportamento do dólar global e o apetite por risco em mercados emergentes definem o fluxo de capital externo para o Brasil — variável que afeta diretamente câmbio, inflação e, por consequência, o nível de juros.

O Brasil é campeão mundial de juros reais. Para o investidor informado, isso é dado — não destino.

Comentários

💬Participe da discussão

Faça login para deixar seu comentário e interagir com outros investidores e leitores do Notícias de Dinheiro.