NOTÍCIAS

>

Mercados

Braskem despenca 17% e lidera perdas do Ibovespa em semana de política monetária

Braskem despenca 17% e lidera perdas do Ibovespa em semana de política monetária

Índice acumula queda de 1,64% e fecha aos 168.333 pontos; dólar avança 2,04% e decisões de juros dominam o humor dos mercados

Índice acumula queda de 1,64% e fecha aos 168.333 pontos; dólar avança 2,04% e decisões de juros dominam o humor dos mercados

Redação ND

Redação ND

|

## Ibovespa recua 1,64% em semana dominada por bancos centrais

A semana encerrada na última sexta-feira trouxe de volta o tom negativo ao principal índice da bolsa brasileira. O Ibovespa acumulou perda de 1,64% no período, encerrando a última sessão aos 168.333,61 pontos — um recuo que, embora não seja catastrófico em termos absolutos, sinaliza um ambiente de maior cautela por parte dos investidores institucionais e de alto patrimônio.

O pano de fundo foi, como tem sido recorrente em 2024, as decisões de política monetária. Com o Federal Reserve (Fed) e o Banco Central do Brasil (Bacen) no centro das atenções, qualquer sinalização sobre trajetória de juros tende a provocar movimentos abruptos nos ativos de risco. E foi exatamente isso que se viu ao longo dos cinco pregões.

O dólar à vista terminou cotado a R$ 5,1648, com valorização de 2,04% na semana — uma pressão adicional sobre empresas com dívida denominada em moeda estrangeira e sobre importadores, mas que beneficia exportadoras com receitas em dólar.

---

## Braskem (BRKM5): queda de 17% concentra atenções

O destaque negativo absoluto da semana foi a Braskem (BRKM5), que despencou aproximadamente 17% e liderou com folga a ponta negativa do Ibovespa. A petroquímica, maior produtora de resinas termoplásticas das Américas, vive um momento de elevada pressão em múltiplas frentes.

A empresa carrega um conjunto de vulnerabilidades que tornam suas ações particularmente sensíveis a mudanças no cenário macroeconômico global. O primeiro vetor de pressão é estrutural: o spread petroquímico — diferença entre o preço das resinas e o custo das naftas — permanece comprimido em nível global, reflexo do excesso de capacidade instalada, especialmente na China, que expandiu agressivamente sua produção nos últimos anos.

O segundo vetor é financeiro. A Braskem carrega uma dívida líquida relevante, majoritariamente denominada em dólar e em real. Com o câmbio pressionado e as taxas de juros domésticas ainda em patamar elevado, o custo de refinanciamento e o peso da dívida no balanço se tornam variáveis cada vez mais monitoradas pelo mercado.

O terceiro vetor é operacional e jurídico: o passivo relacionado ao afundamento do solo em Maceió (AL), consequência da exploração de sal-gema pela companhia, continua a exigir provisões e gera incerteza sobre o montante final de indenizações e reparações. Embora o processo de realocação de famílias tenha avançado, o tema ainda não está encerrado do ponto de vista contábil e reputacional.

Para investidores de alto patrimônio com posição em BRKM5, a queda de 17% em uma única semana exige uma reavaliação criteriosa da tese de investimento. O upside potencial existe — especialmente num cenário de recuperação dos spreads petroquímicos e de eventual deslancamento do processo de venda de participação acionária pela Novonor (antiga Odebrecht) —, mas o horizonte de realização desse valor está longe de ser claro.

---

## Destaques positivos: quem resistiu à maré negativa

Em contrapartida, algumas ações conseguiram nadar contra a corrente. Empresas com perfil defensivo, receitas dolarizadas ou exposição a commodities com fundamentos mais sólidos apresentaram desempenho superior à média do índice.

Exportadoras de commodities agrícolas e minerais tendem a se beneficiar do dólar mais forte. O setor de proteínas, por exemplo, manteve relativa resiliência, sustentado pela demanda externa consistente e por margens que melhoraram após um ciclo adverso em 2023.

No setor financeiro, os grandes bancos operaram de forma mais estável, absorvendo a volatilidade sem grandes oscilações. A perspectiva de um ciclo de corte de juros que, embora mais lento do que o mercado esperava no início do ano, ainda está em curso, sustenta uma visão relativamente positiva para a rentabilidade das carteiras de crédito no médio prazo.

---

## O contexto macro: juros, câmbio e a equação fiscal

Compreender a dinâmica da semana exige olhar para além dos tickers. A política monetária global segue como variável dominante para os mercados emergentes, e o Brasil não é exceção.

Nos Estados Unidos, o Fed mantém sua postura de cautela diante de dados de inflação que, embora em tendência de queda, ainda não permitem uma redução acelerada dos juros. Cada discurso de Jerome Powell ou dado de emprego americano é capaz de redirecionar fluxos de capital globais — e o Brasil, como mercado emergente, absorve parte desse impacto via câmbio e saída de capital estrangeiro.

No front doméstico, o Banco Central brasileiro segue seu ciclo de afrouxamento monetário, mas com ritmo e magnitude que têm gerado debate. A taxa Selic, ainda em patamar historicamente elevado em termos reais, segue sendo o porto seguro para alocadores conservadores — o que, por definição, reduz o apetite por ativos de risco como ações.

A questão fiscal permanece como o elefante na sala. O mercado monitora com atenção o cumprimento das metas do arcabouço fiscal e qualquer sinalização de deterioração nas contas públicas tende a se refletir imediatamente no câmbio e nos juros futuros, criando um efeito cascata sobre a bolsa.

---

## O que o investidor de alto patrimônio deve monitorar

Para quem gerencia portfólios relevantes, a semana serve como lembrete de alguns princípios fundamentais de gestão de risco em renda variável brasileira.

**Concentração setorial é risco.** A queda da Braskem ilustra como uma tese de investimento específica pode sofrer impacto simultâneo de múltiplos vetores negativos — macro, setorial e idiossincrático. Carteiras concentradas em poucos nomes ou setores ficam expostas a esse tipo de volatilidade extrema.

**Câmbio é componente do retorno.** Com o dólar a R$ 5,16 e trajetória incerta, a parcela da carteira alocada em ativos dolarizados — seja via fundos internacionais, BDRs ou ações de exportadoras — cumpre papel de hedge relevante.

**Liquidez tem preço.** Em semanas como esta, a capacidade de reposicionar a carteira rapidamente depende da liquidez dos ativos. Ações de menor capitalização, mesmo com fundamentos interessantes, podem apresentar spreads bid-ask que tornam a saída custosa em momentos de estresse.

**O momento do ciclo importa.** Num ambiente de juros ainda elevados, a renda fixa de qualidade — crédito privado de emissores sólidos, títulos IPCA+ do Tesouro — oferece retorno ajustado ao risco difícil de ser ignorado. A alocação em renda variável precisa ser justificada por prêmios de risco adicionais que, em vários casos, ainda não se materializaram.

---

## Perspectiva para as próximas semanas

O calendário à frente traz novos catalisadores. Dados de inflação nos EUA e no Brasil, reuniões de política monetária e a temporada de resultados corporativos do segundo trimestre vão pautar o humor dos mercados. Para o Ibovespa, manter-se acima dos 165.000 pontos é visto como suporte técnico relevante por analistas gráficos, enquanto uma recuperação consistente dependeria de sinalizações mais claras sobre o ritmo de corte de juros globais.

A Braskem, especificamente, merece monitoramento próximo. Qualquer avanço no processo de desinvestimento da Novonor ou melhora nos spreads petroquímicos poderia desencadear uma recuperação técnica relevante — mas o risco de novas decepções permanece real e deve ser precificado com cuidado.

O investidor disciplinado sabe que semanas como esta fazem parte do jogo. A questão não é evitar a volatilidade, mas estar posicionado de forma que ela não comprometa os objetivos de longo prazo do portfólio.

Comentários

💬Participe da discussão

Faça login para deixar seu comentário e interagir com outros investidores e leitores do Notícias de Dinheiro.