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## O cenário que preocupa os mercados globais
O Bank of America (BofA) emitiu alerta formal sobre o impacto de um dólar persistentemente forte sobre os mercados acionários de economias emergentes — e o aviso chegou em momento delicado. Com o Federal Reserve sinalizando cautela na trajetória de cortes de juros e indicadores de atividade norte-americana sustentando taxas elevadas por mais tempo, o índice DXY — que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de seis moedas desenvolvidas — opera próximo das máximas de 2024, acima dos 104 pontos.
Historicamente, dólar forte e mercados emergentes não convivem bem. A relação é estrutural: países em desenvolvimento carregam dívidas denominadas em moeda americana, importam insumos precificados em dólar e dependem de fluxos de capital estrangeiro que tendem a migrar para ativos norte-americanos quando os juros reais nos EUA sobem. O resultado costuma ser uma combinação tóxica de desvalorização cambial, inflação importada e fuga de capitais.
O índice MSCI Emerging Markets acumula desempenho abaixo do S&P 500 em praticamente todos os ciclos de aperto monetário americano das últimas três décadas. A crise asiática de 1997, o colapso russo de 1998, o taper tantrum de 2013 e o ciclo de alta do Fed entre 2022 e 2023 confirmam o padrão. A pergunta que o BofA coloca agora é: desta vez, o Brasil pode quebrar essa correlação negativa?
## Por que o Brasil pode ser uma exceção
A tese do BofA parte de três pilares estruturais que diferenciam o Brasil do conjunto de economias emergentes neste momento específico.
O primeiro é a pauta exportadora. O Brasil é um dos maiores fornecedores globais de commodities essenciais — soja, minério de ferro, petróleo, açúcar, carne bovina, celulose e café. Essas mercadorias são, em sua maioria, precificadas em dólar nos mercados internacionais. Quando o real se desvaloriza frente ao dólar, as receitas dessas empresas, convertidas em moeda local, se expandem automaticamente, mesmo que os preços internacionais das commodities se mantenham estáveis. É um hedge natural embutido na estrutura produtiva do país.
O segundo pilar é o diferencial de juros. Com a Selic operando na casa dos dois dígitos — entre os maiores juros reais do mundo — o Brasil ainda oferece um carregamento atrativo para investidores de renda fixa em dólar que fazem operações de carry trade. Ainda que o Fed mantenha os juros americanos elevados, a diferença de rentabilidade ajustada ao risco continua favorável ao Brasil em comparação a pares como México, Chile ou Indonésia.
O terceiro elemento é o balanço de pagamentos. O Brasil tem apresentado superávit comercial robusto, com exportações recordes impulsionadas pelo agronegócio e pela Petrobras. Esse excesso de divisas cria um colchão natural contra depreciações cambiais abruptas, diferentemente de economias com déficits crônicos em conta corrente, muito mais vulneráveis à escassez de dólares em períodos de aperto global de liquidez.
## As exportadoras no centro da estratégia
Dentro do universo de ações brasileiras, o BofA identifica as empresas com receitas dolarizadas como as principais beneficiadas deste ambiente. O raciocínio é direto: uma empresa que fatura em dólar e tem custos majoritariamente em real se beneficia duplamente quando o câmbio se deprecia — aumenta a margem operacional em reais e ganha competitividade nos mercados externos.
As candidatas naturais a esse perfil estão concentradas em setores específicos. Na mineração e siderurgia, a Vale é o exemplo mais óbvio: exporta praticamente toda sua produção de minério de ferro, com receitas indexadas ao mercado internacional. Na área de energia, a Petrobras combina receitas em dólar com estrutura de custos parcialmente em real, além de pagar dividendos generosos que atraem investidores orientados à renda. No agronegócio, empresas como BRF, JBS, Marfrig e os grandes traders de grãos seguem a mesma lógica. No setor de papel e celulose, Suzano e Klabin exportam parcela significativa da produção para mercados asiáticos e europeus.
Investidores de alto patrimônio que já possuem exposição a essas empresas em carteira encontram, neste cenário, uma proteção implícita contra a desvalorização cambial — o que é especialmente relevante para quem tem passivos ou compromissos financeiros atrelados ao dólar.
## Os riscos que o BofA não ignora
A análise do banco, no entanto, não é linear. O documento reconhece que a resistência brasileira tem limites e elenca os principais vetores de risco.
O primeiro é a China. O principal destino das exportações brasileiras de commodities é o mercado chinês, e a economia da segunda maior potência mundial enfrenta desafios estruturais relevantes: crise imobiliária ainda não totalmente absorvida, consumo doméstico abaixo do esperado e tensões geopolíticas com os Estados Unidos que afetam o comércio global. Se a demanda chinesa por ferro, soja e petróleo recuar de forma mais intensa, o efeito positivo do dólar forte sobre as exportadoras brasileiras seria parcialmente neutralizado.
O segundo risco é interno. O Brasil convive com incertezas fiscais que mantêm o prêmio de risco doméstico elevado. Qualquer sinal de deterioração mais aguda das contas públicas — seja pelo descumprimento do arcabouço fiscal, seja por expansão de gastos acima do previsto — pode elevar o risco-país e pressionar o câmbio por razões domésticas, descolando o Brasil do comportamento previsto pelo modelo do BofA.
O terceiro vetor de risco é o próprio ritmo do aperto americano. Se o Fed precisar elevar juros além do que o mercado precifica atualmente, o movimento de aversão ao risco global poderia ser severo o suficiente para arrastar até mesmo as economias emergentes com fundamentos mais sólidos — incluindo o Brasil.
## O que o investidor de alto patrimônio deve monitorar
Para quem administra patrimônio relevante e já possui ou considera posições em ativos brasileiros, o relatório do BofA oferece um mapa de navegação prático.
O primeiro ponto de atenção é a composição cambial da carteira. Em ambientes de dólar forte, aumentar a exposição a ativos dolarizados — diretamente, via BDRs de multinacionais, ETFs internacionais ou ações de exportadoras listadas na B3 — pode funcionar tanto como geração de retorno quanto como proteção patrimonial.
O segundo ponto é o monitoramento do DXY e das expectativas para os Fed Funds Futures. Esses dois indicadores antecipam o humor do mercado global antes que ele se reflita nos preços dos ativos brasileiros, criando janelas de entrada ou saída com margem temporal para decisão.
O terceiro elemento é a gestão de risco geopolítico. A exposição a empresas fortemente dependentes da demanda chinesa exige acompanhamento próximo dos dados de atividade industrial e imobiliária da China, além das negociações comerciais entre Pequim e Washington.
## Contexto histórico e perspectiva
Vale lembrar que o Brasil já demonstrou capacidade de resistência em ciclos anteriores de dólar forte. Entre 2014 e 2016, quando o país atravessava uma de suas piores recessões e crises políticas, o real se depreciou mais de 100% frente ao dólar — mas as exportadoras, especialmente Petrobras e Vale, serviram de âncora para os portfólios que mantiveram exposição ao setor.
O ciclo atual apresenta dinâmica diferente. O Brasil chega a ele com balanço comercial mais saudável, reservas internacionais acima de US$ 350 bilhões e uma política monetária contracionista que ainda oferece atratividade ao capital externo. Esses fatores, combinados, sustentam a tese do BofA de que o país pode, desta vez, navegar o ambiente de dólar forte com menos turbulência do que seus pares emergentes.
A conclusão do banco não é de otimismo irrestrito — é de resiliência relativa. E para o investidor sofisticado, resiliência relativa em um ambiente global adverso pode ser, por si só, uma vantagem competitiva significativa.
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