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Tesouro Nacional pode intervir nos títulos públicos, diz Ceron

Tesouro Nacional pode intervir nos títulos públicos, diz Ceron

Secretário-adjunto da Fazenda critica leitura simplificada sobre a disparada das taxas e sinaliza possibilidade de atuação direta no mercado

Secretário-adjunto da Fazenda critica leitura simplificada sobre a disparada das taxas e sinaliza possibilidade de atuação direta no mercado

Redação ND

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## O sinal de alerta veio do segundo escalão da Fazenda

Rogério Ceron, secretário do Tesouro Nacional e número dois do Ministério da Fazenda, rompeu o silêncio técnico que costuma caracterizar a cúpula da pasta e admitiu publicamente que o nível atual das taxas dos títulos públicos brasileiros é motivo de preocupação genuína. Mais do que isso: sinalizou que o Tesouro Nacional tem instrumentos para agir e que essa possibilidade está sobre a mesa.

A declaração não é trivial. Autoridades do calibre de Ceron raramente verbalizam preocupação com precificação de ativos de forma tão direta — especialmente em um ambiente onde qualquer palavra mal colocada pode amplificar a volatilidade que se pretende conter. O fato de ele ter escolhido falar indica que o nível de estresse nos mercados de juros atingiu um patamar que o governo já não considera prudente ignorar publicamente.

## O que está acontecendo com as taxas

Os títulos públicos brasileiros, especialmente os prefixados de prazo mais longo e as NTN-Bs (Tesouro IPCA+), vêm registrando taxas em níveis historicamente elevados. O Tesouro IPCA+ com vencimento em 2035 chegou a operar com prêmio acima de 7,5% ao ano em termos reais — patamar que não se via desde os momentos mais agudos da crise fiscal de 2015 e 2016, quando o Brasil perdeu o grau de investimento pelas agências internacionais.

Essa abertura de taxas tem efeitos concretos e encadeados: encarece o refinanciamento da dívida pública, pressiona o câmbio, eleva o custo de capital para o setor privado e, do ponto de vista do investidor, cria aquela combinação paradoxal de oportunidade e risco que exige análise fria.

Para o investidor de alto patrimônio, a equação é complexa. De um lado, retornos reais acima de 7% ao ano em títulos soberanos são raros no mundo e historicamente atrativos no Brasil. De outro, a abertura de taxas em mercado secundário implica marcação a mercado negativa para quem já carrega esses papéis na carteira — e o movimento pode ter mais fôlego antes de reverter.

## A crítica de Ceron à narrativa simplificada

O ponto mais relevante da fala do secretário, e que merece atenção especial dos investidores sofisticados, foi sua crítica ao que classificou como uma "leitura simplificada" das razões para a alta das taxas.

Há uma narrativa dominante nos mercados de que a abertura das taxas brasileiras reflete exclusivamente deterioração fiscal — o deficit primário, o arcabouço fiscal sob tensão e a percepção de que o governo não tem comprometimento real com o equilíbrio das contas públicas. Ceron contesta essa leitura monocausal.

Ele tem razão em ao menos parte do argumento. A alta das taxas longas dos títulos do Tesouro americano (os Treasuries) exerceu pressão sobre mercados emergentes de forma ampla, não seletiva. O Federal Reserve manteve os juros elevados por mais tempo do que o mercado antecipava, e a reprecificação global dos ativos de risco gerou saída de capital de países como o Brasil de forma sistêmica, não necessariamente como julgamento específico sobre a política fiscal de Brasília.

Além disso, há componentes técnicos relevantes: o perfil de vencimentos da dívida pública federal, a demanda de investidores institucionais locais — especialmente fundos de pensão e seguradoras com necessidades de ALM (gestão de ativos e passivos) — e o comportamento dos formadores de mercado em momentos de menor liquidez.

Isso não significa que o componente fiscal seja irrelevante. Significa que atribuir 100% do movimento a um único fator é, de fato, uma simplificação que pode levar a decisões equivocadas.

## O que o Tesouro pode fazer — e o que isso significa

Quando Ceron fala em "possibilidade de atuação", o mercado interpreta isso como referência a operações de recompra de títulos (buybacks). Trata-se de mecanismo pelo qual o Tesouro Nacional adquire de volta papéis em circulação no mercado secundário, reduzindo a oferta e pressionando as taxas para baixo.

Essas operações têm precedente. O Tesouro já realizou recompras em momentos de estresse em 2020, durante o pico da pandemia, e em outros episódios de disfuncionalidade de mercado. A diferença é que, naquelas ocasiões, havia clareza sobre o fator exógeno que causava a distorção. Agora, o diagnóstico é mais disputado.

Uma intervenção via recompra teria efeito imediato na curva de juros, mas carrega riscos de sinalização. Se o mercado interpretar a ação como tentativa de suprimir artificialmente o prêmio de risco fiscal, o efeito pode ser contraproducente — especialmente junto a investidores estrangeiros que monitoram a postura do governo com relação à disciplina fiscal.

Há também a questão do custo fiscal da operação em si: recomprar títulos a preços de mercado estressados, para depois reemitir em condições potencialmente piores, tem custo real para o Tesouro.

## Implicações para o investidor de alto patrimônio

Para o investidor com carteira relevante em renda fixa brasileira, o momento pede clareza sobre três dimensões distintas:

**Horizonte de investimento:** Quem carrega NTN-Bs até o vencimento captura a taxa contratada independentemente da volatilidade intermediária. Para esse perfil, o nível atual das taxas representa uma das melhores janelas de alocação da última década. Quem precisa de liquidez no curto prazo enfrenta risco real de marcação a mercado negativa.

**Concentração em duration:** Carteiras com duration elevada — grande concentração em papéis de prazo longo — são mais sensíveis a movimentos nas taxas. Em ambientes de incerteza como o atual, é prudente avaliar se a distribuição entre papéis curtos, médios e longos reflete adequadamente o perfil de risco e o horizonte do investidor.

**Diversificação internacional:** A sinalização de Ceron, por mais técnica que seja, não elimina o componente de risco político e fiscal que o Brasil carrega. Para patrimônios acima de R$ 5 milhões, a alocação em ativos internacionais — incluindo Treasuries, que oferecem taxas atrativas em dólar — continua sendo elemento essencial de proteção patrimonial, não especulação.

## Contexto histórico que não pode ser ignorado

O Brasil tem um histórico longo e documentado de crises que começam exatamente como esta: com autoridades sinalizando preocupação, narrativas disputadas sobre as causas do estresse e janelas de oportunidade que rapidamente se convertem em armadilhas.

Isso não significa que o pior está por vir. Significa que a análise precisa ser feita com rigor e sem viés confirmatório — nem o otimismo ingênuo de quem acredita que taxas altas são sempre oportunidade, nem o pessimismo automático de quem vê colapso iminente em cada sinal de estresse.

O que Ceron disse é importante, mas o que o governo fará nos próximos meses — em termos de comprometimento real com o arcabouço fiscal, controle de gastos e comunicação consistente com o mercado — é o que determinará se as taxas atuais representam ponto de entrada ou estágio inicial de deterioração mais ampla.

## O que monitorar nas próximas semanas

Investidores devem acompanhar com atenção: a evolução do resultado primário do governo nos dados mensais do Tesouro; eventuais anúncios de operações de recompra de títulos; o comportamento do câmbio como termômetro do fluxo de capital externo; e as declarações do Banco Central sobre a trajetória da Selic, que interage diretamente com a curva longa.

A fala de Ceron abriu uma janela de transparência rara. Usá-la bem, como investidor, significa não se contentar com a manchete — mas aprofundar a análise sobre o que está por trás dela.

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